terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Gabriel e o sonho de ser jogador


Ele tinha um sonho como qualquer outro jovem: ser jogador de futebol. Na verdade era uma mistura de pretensão com sonho. Ele se destacava por onde passava. Eu procurava ajudá-lo sempre. Não é fácil, pois exige muita vontade da pessoa. Já o vi em jogar em muitos times. Já o levei em muitos testes. Alguns sem sucesso. Aqueles em que foi bem, acabou desistindo. Faltava algo principal para um garoto daquela idade: vontade. Qualidade ele tinha, mas a preguiça o dominava. Ele precisava correr atrás. Às vezes imaginava que a oportunidade iria bater na porta. 

Nunca escondeu qual era a sua posição preferida em campo. Gostava de jogar no meio, como um segundo volante. Além da saída de bola, tinha uma qualidade que diferenciava dos outros, a marcação. Ele nunca gostou de marcar, mas sempre entendeu que a posição exigia esse fundamento.

Sempre falei pra ele, você é melhor marcando do que com a bola nos pés. Às vezes era mais pra provocar mesmo. Isso o deixava irritado. Ainda temos aquela velha mania. Jogador que só sabe marcar é fraco. Isso não existe. Marcação é uma qualidade no futebol. 

Com a bola nos pés ele sabia o que fazer. Tinha um passe qualificado, sabia dar um lançamento de 10 ou 20 metros. Nunca foi craque, mas era sempre um dos primeiros a serem escolhidos para o time. Procurava “ensinar” os outros a jogarem como uma equipe. Todos atacando, correndo e defendendo. 

Um defeito: o chute a gol. Finalizava muito mal, não melhorava nem com os treinos. Isso desde os seus 10 anos. Uma vez ou outra acertava um bom chute. Eu presenciei um gol que ele fez da meia lua, um dos mais bonitos de sua vida. Cortou um zagueiro e bateu colocado no ângulo. Muito parecido com o do Kaká, contra a Argentina, na Copa das Confederações, em 2005. Na hora fiquei surpreso e não acreditei que o gol havia sido dele. Ficava pensando “Por que não finaliza sempre assim?”. Paciência, esse era um defeito dele nos gramados. 

Tudo isso eu falo com propriedade. Ele se destacava no campo. Nas quadras de Futsal e Society ele era apenas mais um. A qualidade dele aparecia mesmo em um campo de futebol. Era são-paulino, mas para mim sempre elogiou a torcida do Corinthians. No fundo, ele tinha mais vontade em jogar no Corinthians do que no São Paulo. Acho que mais pela torcida.

Nunca teve frescura com os times. Jogou no São Paulo, Corinthians, Ponte Preta e outros do interior de São Paulo. Ficou por pouco tempo em todos esses. A desculpa sempre foi o cansaço. Alegava que ambos os clubes eram muito distantes. Paciência, não era pra ser. 

Infelizmente ele não realizou esse sonho. Que além dele, também era o meu. Hoje, eu imagino meu irmão brilhando nos campos do céu...

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